viernes, 13 de enero de 2012

Lustra de Ezra Pound


Lustra de Ezra Pound


Em se tratando da concepção do poema, poucos foram os que, como Ezra Pound, compreenderam a efetiva conexão entre técnica e inspiração. O controverso poeta americano não via aí uma oposição dialética entre ambas, como é vulgarmente entendida, mas uma mecânica complementar: a inspiração como combustível para os diversos modos de complexidade da escrita. Quanto mais preparado fosse o poeta, melhor ele poderia empregar a energia furiosa da criação. Munido dessa compreensão, Pound criou uma obra que inspirou paixão – e também ódio – pelo seu caráter transgressor, anticonformista e supostamente hermético.

De modo análogo, poucos são os editores hoje no Brasil que articulam em seu ofício a mesma técnica e paixão com a qual Vanderley Mendonça dirige seu pequeno selo Demônio Negro, sediado em São Paulo. Produzindo manualmente volumes em capa dura, impressos com máquinas alemãs centenárias, que ele mesmo procura (nos mais distantes recantos rurais da Europa) e restaura, tem levado ao mercado obras fundamentais, não obstante raras ou inéditas em português. Pelo selo já foram lançadas joias como a primeira versão completa e não fac-similada de "O Guesa", de Sousândrade, e textos negligenciados de Octavio Paz, Verlaine, Rubén Darío e Ramón Gómez de la Serna, corrigindo escandalosas faltas no catálogo dos colossos editoriais. 

Não por acaso, é a Demônio Negro que se arrisca agora a lançar a edição integral de "Lustra", de Pound, com tradução de Dirceu Villa. A despeito da importância da coletânea dentro da obra do autor, o público brasileiro dispunha apenas de duas dezenas de seus poemas traduzidos, nos anos 60, por Mário Faustino e Augusto de Campos. Considerando a dedicação com a qual os concretistas divulgaram a obra do poeta no Brasil, deixando legiões de seguidores, é de se espantar que tenhamos parado n"Os Cantos", traduzido por Grünewald, e em algumas antologias.

Mas é também em certa singularidade da obra que se revela o caráter guerrilheiro da edição. Muito além de preencher uma lacuna, sua chegada contribui para expandir (ou subverter) o imaginário que temos do poeta. Escrito durante os anos em que ele viveu em Londres, o livro nos traz um imagista de outra natureza: mais leve e discursivo, deliberadamente cômico, terno e satírico, menos alinhado com a densidade d"Os Cantos", ainda que estejam ali as aspirações épicas, o gosto pela poesia chinesa e latina e pela carpintaria meticulosa. Foi na capital britânica que o jovem Ezra achou um terreno propício para fundar as bases de sua poética revolucionária, na qual a fabulação pela “forma” correspondia à necessidade de escandalização da sociedade londrina.


Nesse Pound, encontramos a rebeldia boêmia, a verve polemista, a indignação com a intelligentsia vazia, o desejo de ferir os bons costumes, não esquecendo certa solidão melancólica (digna do fragmento de Lope de Vega colocado como epígrafe do segundo poema) e, em igual medida, o desejo incorrigível pelo mundo futuro, sonhado através do desprezo ao presente, como ecoa nos versos de “Causa”: Junto estas palavras para quatro pessoas/ Outros vão, quem sabe, ouvi-las;/ Ó mundo, mundo, sinto muito,/ Você não conhece essas quatro pessoas. Considerada sua primeira incursão modernista, antecipadora de tendências, o livro é obra do poeta full time, fora do gabinete, vivendo de e para sua arte e tempo; e no qual se vê a gênese do que ele viria a se tornar: um animista da forma – crente na mutação da matéria através da palavra. Um espírito rebelde que faz falta hoje. Como previsto, Lustra foi um escândalo, e Pound, criticadíssimo. Alguns poemas (reincluídos nessa edição) foram censurados, outros mutilados ou alterados. 

A competente tradução de Dirceu Villa tenta adequar-se à variedade de propostas dos poemas do livro – o que acaba por contribuir com disparidades nos métodos empregados. Faz falta, aliás, informação sobre como a tradução é conduzida. As notas e a introdução, apesar da linguagem excessivamente acadêmica (o que afasta do próprio clima inconformista da obra), são excelentes e trazem dados fundamentais sobre a obra e o autor, mas nada sobre o trabalho do tradutor.

Independente desses pormenores, "Lustra" é talvez o livro de poesia mais importante lançado nesse ano. Sua publicação traz ainda um feito notável em termos de atitude. Tal como os versos defendidos apaixonadamente por Pound para que não fossem suprimidos por decisão (também apaixonada) de seu editor, a presente edição é fruto da crença de um microeditor e de um jovem tradutor, lutando no dente contra forças invencíveis. O próprio fato de um poeta com menos de 40 anos arriscando-se na tradução de um autor complexo, até então restrito às gerações dos já ultraconsagrados, representa uma mudança de ângulo, um jeito de reivindicar maturidade e erudição às gerações de agora. Algo, enfim, que nos ajude a tentar recuperar um pouco da rebeldia perdida. Se o futuro é uma incógnita, o presente, mais sólido, permite-se ainda ser surpreendido.

MÁRCIO-ANDRÉ é poeta e tradutor

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